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Ações da Oi caíram de R$ 80 para R$ 0,50. Chegou a hora de investir?

César Esperandio

14/04/2020 04h00

As ações da Oi já chegaram a valer mais de R$ 80. Hoje, operam na casa dos R$ 0,50. Você sabe por que elas desvalorizaram tanto?

O economista César Esperandio, do Econoweek, a tradução da economia e do dinheiro, vai mostrar porque elas desvalorizaram tudo isso e dizer se vale ou não a pena investir em ações da Oi.

Relembramos alguns dos principais motivos de as ações da Oi estarem tão baratas para você ter mais elementos decidir sobre seu investimento.

Reunimos algumas informações a partir de dois relatórios que resumiram a situação da empresa: um da corretora Toro, que chega a doar ações da Oi aos novos clientes, e outro relatório da Levante Investimentos, sobre a possibilidade de se fazer esse investimento.

Apesar de haver diversos analistas com recomendações diferentes sobre investir ou não nas ações da Oi, todos são unânimes em dizer que esse é um investimento de alto risco.

Nós fizemos uma análise nesses mesmos moldes, mostrando se vale a pena investir na CVCB3, as ações da CVC, que caíram de R$ 60 para R$ 10.Vale a pena conferir.

Envolvimento com o Governo

Talvez você não saiba, mas a Oi surgiu de uma privatização que desmembrou a antiga estatal Telebras em várias empresas, em 1998. Uma delas foi a Telemar, que hoje é a Oi, bem resumidamente.

Essa privatização já nasceu envolvida em alguns escândalos de corrupção, um deles com o BNDES. E chegou a ter como acionistas os fundos de pensão da Caixa Econômica e da Petrobras (Funcef e Petros), bem como o próprio BNDES.

Gestão turbulenta

Além de vários negócios questionáveis ao longo de sua vida, a Oi teve muitos presidentes diferentes desde o seu nascimento, fazendo o negócio mudar muito de direção.

Somado a isso, há um histórico complicado, com um "vai e vem" de vários acionistas importantes, com interesses diferentes, atrapalhando o que deveria ser objetivo principal: ser uma empresa eficiente e lucrativa.

Falando de negócios questionáveis, em 2008, a Oi recebeu um empréstimo do BNDES e do Banco do Brasil para comprar a Brasil Telecom.

Na época, o que parecia um bom negócio, já começou mal quando descobriram uma enorme dívida da companhia recém adquirida em ações judiciais.

Começou mais ou menos aí um grande problema de endividamento da empresa que persiste até hoje como uma de suas principais características estruturais.

Problemas estruturais

Além da dívida elevada que a companhia possui como passivo, ela tem uma estrutura de custos muito grande, de modo que a tendência de endividamento, se nada for feito, é crescente.

A Oi chegou a ter uma dívida de R$ 65 bilhões em 2017, que foi reduzida para R$ 16 bilhões. Essa forte redução, entretanto, ocorreu principalmente pela reestruturação das dívidas dentro do plano de recuperação judicial. De modo que isso não significa que o problema de gastos elevados esteja resolvido.

Outro problema estrutural decorre de que a Oi, historicamente, tem forte presença em telefonia física, que hoje em dia praticamente não tem mais relevância em um mercado em que nem pacote de voz se usa mais, com predomínio de receitas vindas da venda de pacote de dados e internet da telefonia móvel.

Ainda assim, depois de uma mudança em uma lei (PLC 179), ela ficou desobrigada a continuar investindo em orelhões, embora passou a ter a exigência de investir em banda larga em regiões afastadas, que nem sempre são interessantes comercialmente. Uma boa notícia, já que reduziu custos e, nem precisamos dizer, a banda larga é muito mais promissora.

Para encerrar esse assunto, a Oi ainda tem um histórico de governança corporativa ruim, que refletiu em parte da queda do preço de suas ações ao longo dos anos.

Então vamos olhar o retrato da Oi nos dias de hoje.

O que precisa ser feito?

A Oi está em recuperação judicial, que é uma medida para tentar evitar a falência.

A companhia entrou em recuperação judicial justamente porque perdeu a capacidade de pagar suas dívidas e, nesse processo, tem a oportunidade de reorganizar seus negócios, renegociar dívidas e arrumar a casa.

Para que as coisas comecem a melhorar, e o preço das ações comecem a subir, há algumas coisas importantes que precisam ser feitas (embora não sejam as únicas).

A primeira coisa a ser feita seria uma política de desinvestimentos, vendendo tudo o que não for essencial a seus negócios. Essa é uma das principais exigências de seus investidores.

Com isso, ela se livraria de despesas enormes, que consomem seu caixa, e ainda geraria receita para cobrir suas dívidas. Mas, se isso acontecer, não deverá ser nada rápido.

Esse é um ponto complicado, pois os potenciais interessados sabem que a Oi precisa desesperadamente de caixa, tirando muito do poder de negociação da companhia. Mesmo assim, recentemente, ela conseguiu vender uma fatia de um negócio que ela tinha na Angola por US$ 1 bilhão, que foi considerado um ótimo valor.

O segundo ponto é que, ao mesmo que tempo que precisa desinvestir, também é necessário investir muito dinheiro para correr atrás dos concorrentes.

A Oi tem planos de expandir sua presença em fibra ótica direto ao cliente e em melhorar sua atuação na rede 4G e 4.5G, os setores mais lucrativos. Aqui, as concorrentes mais saudáveis também têm melhor capacidade de investimentos.

Outra esperança de salvação para quem tem essas ações no portfólio seria a venda da Oi, mesmo que apenas parte dela, para seus concorrentes ou empresas interessadas.

Aqui, o segmento móvel é seu principal ativo, que pode despertar interesse.

Mas os principais processos de fusões e aquisições só devem acontecer quando ela arrumar a casa e sair do processo de recuperação judicial.

Vale a pena investir na Oi?

Se tudo der certo para a Oi, o que não deve acontecer tão rápido, as ações podem voltar a valorizar bastante.

Na filosofia de investimentos do Econoweek, de longo prazo, priorizando empresas saudáveis, com capacidade de gerar caixa e distribuir dividendos, a Oi passa a ser uma aposta muito arriscada. Hoje, a Oi opera com prejuízo e não distribui dividendos.

Essa não é uma recomendação para investir ou deixar de investir. Cada um deve adequar seus investimentos ao seu momento e perfil de risco.

Essa é uma análise da ação de uma empresa em específico. Mas é fundamental diversificar seus investimentos. O economista do Econoweek, César Esperandio, mostrou como ele perdeu só 1% enquanto a Bolsa caiu 40%, montando uma carteira de investimentos diversificada.

A própria Toro, que recomenda a compra dessas ações, aconselha a não compor seu portfólio de renda variável com mais de 5% de Oi.

Para aqueles que mesmo assim querem arriscar, investir apenas um volume de dinheiro que não fará nenhuma falta se "virar pó", pode ser uma atitude mais prudente. Afinal, a chance de a Oi falir existe.

Por outro lado, há a polêmica ação da Toro Investimentos, que dá 100 ações da Oi para quem investir os primeiros R$ 1.000 em qualquer ativo disponível na corretora. Nessa situação, sem "colocar dinheiro do bolso", neutralizando o risco, pode ser uma exposição adequada.

Caso contrário, pensaria duas vezes.

Sobre os Autores

César Esperandio: economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

Yolanda Fordelone: economista e jornalista, teve passagens por grandes jornais nas áreas de economia e finanças, foi professora em um curso de graduação em Economia e hoje coordena uma equipe em um aplicativo de gestão financeira. Além disso, se dedica às finanças pessoais no Econoweek.

Sobre o Blog

O Econoweek é um blog escrito por dois economistas que querem traduzir a economia, as finanças e o dinheiro.

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