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Bullying ainda faz parte da rotina do estagiário do mercado financeiro

César Esperandio

13/12/2019 04h00

Muitos jovens que cursam Economia, Administração, Contábeis, Direito ou Engenharia, querem ingressar no mercado financeiro. Com salários acima da média, status e experiência encantadoras, a cobrança e o stress vêm juntos no pacote. Assim, histórias de bullying e assédio moral no ambiente de trabalho, principalmente sobre quem está em início de carreira, como os estagiários, são frequentes.

O economista do Econoweek, César Esperandio, que tem mais de dez anos de experiência no mercado financeiro, contou algumas de suas experiências durante os seus estágios e como lidar com esse tipo de situação.

 

Aconteceu comigo

Certa vez, durante o seu primeiro estágio em uma das maiores consultorias econômicas brasileiras, um dos economistas mais famosos, dentro e fora da empresa, acostumado a dar entrevistas à TV, surpreendeu ao então novo estagiário do departamento.

"Esse trabalho está errado", gritava com todos os estagiários do setor. "Eu pago bem para vocês fazerem um trabalho que até um macaco faria e ainda o fazem errado", continuava, direcionando suas palavras especificamente ao estagiário supostamente autor de tamanho equívoco, porém incluindo a todos na humilhação diante de todos os presentes na sala.

Mas não havia erro. Todo o trabalho havia sido feito segundo lhe foi ensinado. A natureza do trabalho daquele estagiário, que era lidar com dados e números, tem dessas coisas: os números as vezes se comportam de maneira esquisita.

Resumo da ópera: minutos depois, chegou-se à conclusão que o jovem estagiário não havia errado, mas nenhum pedido de desculpas ocorreu. Nem reservadamente, tampouco publicamente.

Exposições desse tipo são frequentes no mercado financeiro. Os mais experientes, que já passaram por coisas piores, repetem o comportamento e reclamam saudosamente de como havia mais liberdade para "brincar" com os menos experientes na sua época.

Talvez, querendo viver no ambiente do filme O lobo de Wall Street, profissionais do mercado financeiro passam do ponto e vivem em uma fantasia perversa, onde o maior "pisa" no menor, que por sua vez desconta em seu subalterno.

Não precisamos dizer que a ponta mais fraca desse elo é o estagiário.

 

Aconteceu com um amigo

Resumidamente, em uma corretora de valores, o estagiário se desdobrava para fazer tudo que era exigido dele. Relatórios, análises, estudos. Tudo sempre entregue no prazo e com esmero.

O analista sênior sequer lia ou analisava o trabalho e já decretava publicamente: "está ruim!"

Stress e ansiedade passaram a fazer parte da rotina desse estagiário, que um dia tomou uma postura diferente e enfrentou duramente o analista, questionando se havia algum problema pessoal nessa relação.

Desse dia em diante, o analista passou a dar mais atenção ao trabalho do jovem, elogiando-o constantemente.

É difícil dizer qual é a postura mais adequada. Abusos não devem ser tolerados e, nesse caso, o jogo virou.

 

O que fazer?

Eu, César Esperandio, sou muito grato a todo o aprendizado e experiência que adquiri no mercado financeiro, em grandes bancos e consultorias. Mas nunca gostei das sessões de humilhações que passei ou que vi colegas passarem.

Há profissionais sensatos e insensatos nesse meio, como em qualquer lugar. E, tenho a impressão de que, muito timidamente, há uma melhora nesse tipo de coisa.

Reclamações de colegas contra esses comportamentos, na minha experiência, quase sempre se mostraram ineficazes.

Ao jovem que deseja ingressar no mercado financeiro, é necessário saber o seu valor e não tolerar excessos. Porém, é nítido o desequilíbrio de forças entre quem ofende e quem é ofendido, deixando pouca margem para reação.

Sim, é totalmente possível fazer uma reclamação para o departamento responsável por esse tipo de coisa, mas, no início da carreira, quando ainda há muita insegurança e vontade de progredir, broncas desmedidas e exposições públicas são frequentes e acabamos "deixando passar".

Se você quer ingressar no mercado financeiro, eu diria para ir fundo. É um ambiente enriquecedor em termos de conhecimento e salário, porém, ainda muito pobre em comportamento.

Eu diria que não repetirmos esse tipo de coisa e não incentivarmos com risadinhas os excessos, já é um passo para enfraquecer essa cultura.

Há também brincadeiras saudáveis no ambiente de trabalho e eu sempre gostei desse tipo de descontração, mas há limites.

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os Autores

César Esperandio: economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

Yolanda Fordelone: economista e jornalista, teve passagens por grandes jornais nas áreas de economia e finanças, foi professora em um curso de graduação em Economia e hoje coordena uma equipe em um aplicativo de gestão financeira. Além disso, se dedica às finanças pessoais no Econoweek.

Sobre o Blog

O Econoweek é um blog escrito por dois economistas que querem traduzir a economia, as finanças e o dinheiro.

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