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Como se preparar para a (quase certa) crise de 2020

César

22/11/2019 04h00

Muito tem se falado sobre a possibilidade de uma crise econômica nos EUA em 2020, que vai afetar o mundo inteiro, inclusive o Brasil, que já não anda nada bem.

No vídeo acima, eu, César Esperandio,, economista do Econoweek, comentei os porquês dessa possibilidade, como isso afetará o Brasil, além de duas linhas de estratégias para você estar preparado caso essa crise realmente ocorra: uma estratégia defensiva e outra ofensiva.

 

Por que pode haver crise em 2020?

Eu trabalhei por dez anos no mercado financeiro, em bancos e consultorias econômicas, mais precisamente em departamentos macroeconômicos, justamente construindo cenários do que pode ocorrer na economia, para ajudar aos investidores a tomarem as melhores decisões. Fazia análises como a que compartilho agora com você.

Nos Estados Unidos, o Fed, o banco central local, injetou muita liquidez no mercado como parte de uma estratégia para fazer a economia se reerguer da crise de 2009. Isso quer dizer que o Fed baixou muito os juros e botou muito dinheiro para circular, reaquecendo a economia.

Mais recentemente, também houve medidas do Presidente Donald Trump, como a diminuição os impostos, que ajudaram a fazer a economia crescer com mais força. Mas esse efeito já está passando.

Segundo uma pesquisa feita com os economistas americanos pela NABE (National Association for Business Economics), 80% dos participantes acham que haverá uma desaceleração na economia americana em 2020.

A principal evidência que você deve estar ouvindo por aí é a tal da inversão da curva de juros. Tipicamente, os juros longos (aquelas dos papeis que vencerão daqui alguns anos) pagam mais que os juros curtos. Mas, de vez em quando, está acontecendo o contrário.

Traduzindo, os títulos públicos americanos, equivalentes ao nosso Tesouro Direto, estão pagando quase a mesma coisa (e as vezes mais) para os que têm vencimento de dois anos, contra os que têm vencimento de dez anos.

O normal é que quanto mais tempo você tenha que deixar o dinheiro parado o título pague proporcionalmente mais juros. Mas não é bem isso que está acontecendo.

Esse pode ser um sinal de que as pessoas não estão muito confiantes no futuro e preferem garantir a retirada do dinheiro em horizonte mais próximo. Várias inversões de juros, como essa, antecederam períodos de recessões econômicas. E é daí que vem o medo do mercado.

Além disso tudo, há o impasse da guerra comercial EUA-China, o Brexit no Reino Unido, algumas guerras ao redor do globo, a Europa que até hoje não se recuperou definitivamente da crise de 2009, a OMC (Organização Mundial do Comércio) mostrando diminuição do comércio no mundo e muitos especialistas falando de um menor crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global.

 

Como isso afeta o Brasil?

O Brasil é considerado uma economia emergente e, portanto, de maior risco. Em momentos de crise, recessão ou incerteza, os investidores estrangeiros saem desse tipo de lugar mais arriscado, como é o caso do Brasil.

Se o clima da Bolsa por aqui está bom, pode voltar a piorar. Muitos criticam que só a Bolsa vai bem por aqui, já que o desemprego continua elevado e o PIB não voltou a crescer para valer.

Isso pode significar uma nova rodada de piora percebida da economia, com risco de elevação do desemprego, que é o que interessa para a maioria de nós.

É claro que medidas importantes estão sendo tomadas no Brasil, como a aprovação da reforma da previdência, além de outras reformas administrativas e tributária. Apesar de isso melhorar a percepção de saúde fiscal e econômica do Brasil, os efeitos práticos nas contas públicas vão demorar para aparecer e o país não deixará de ser uma economia emergente da noite para o dia.

Com ou sem reforma, se houver recessão global, os investidores certamente evitarão o Brasil. Além disso, o dólar elevado (que nos últimos dias bateu R$ 4,20) já evidencia que os investidores estrangeiros continuam avessos ao Brasil.

 

Estratégias para se preparar para a crise

Há duas linhas de estratégias. A defensiva e a ofensiva. Há quem diga que a melhor defesa é o ataque. E há quem diga o contrário.

No futebol, normalmente os melhores times de futebol são os que tomam menos gols, justamente porque têm as defesas menos vazadas, com ótimos zagueiros. Então vamos começar pelas estratégias defensivas.

 

Estratégias defensivas

 

1. Pague as dívidas, começando pelas de juros mais altos

Se você ainda não sabe os juros que paga em cada dívida e crédito tomado, descubra isso já.

Basta entrar em contato com o seu banco, ou com a loja que você tem parcelas a pagar, e perguntar isso. Nas letrinhas miúdas dos boletos e contratos dá para ver isso.

Se livre das dívidas mais caras primeiro e depois acerte as contas das menos caras, também levando em consideração o tamanho da dívida.

No caso de você sofrer com a eventual crise de 2020 e ficar desempregado, não ter nenhuma dívida, em dia ou não, vai aliviar muito o seu orçamento e evitar que isso vire uma bola de neve.

Nós já publicamos um conteúdo justamente falando de cinco mudanças radicais para você tomar e zerar as dívidas rapidamente.

 

2. Monte uma reserva de emergência

A regra de bolso diz para você ter entre seis e 12 meses dos seus gastos em algum investimento que você possa sacar a qualquer momento.

Bons exemplos de investimentos desse tipo são o Tesouro Selic ou mesmo o dinheiro parado na Nuconta, do Nubank, que te paga aproximadamente a taxa Selic, uma ótima remuneração para esse tipo de investimento.

Você pode construir outros tipos de investimentos paralelamente? Pode, claro. Mas é importante ter uma reserva de emergência em algo considerado mais seguro e líquido, pois caso perca o emprego na crise, poderá ficar até um ano desempregado mantendo o padrão de vida, justamente por conta dessa reserva.

Dica: fique calmo caso você não tenha nada em uma reserva de emergência. Esse é só um parâmetro para ser atingido e essa reserva é para ser construída devagarzinho mesmo.

Sempre reserve uma parcela do que você ganha, assim que receber o salário, e invista nesse tipo de coisa. Mesmo que sejam só R$ 10,00 ou R$ 5,00.

O importante é sempre poupar e investir.

 

3. Mantenha a calma

Essa dica é muito importante, mas muito fácil de ser quebrada.

Caso comece uma recessão, os primeiros reflexos acontecerão no mercado financeiro, com queda das bolsas, das ações e do preço de outros ativos. "Nessa hora, é muito comum ver as pessoas se desesperarem e se desfazerem dos seus investimentos", afirma Elysio Xavier, CEO da  MatchMoney, uma fintech de investimentos com retornos de mais de 300% do CDI. "É preciso manter a calma", afirma.

A maior parte dessa queda de preços de ações, por exemplo, vem apenas do medo e da aversão ao risco, não mudando nada da empresa que essa ação representa. Então, passada a crise, a maioria das ações pode voltar a subir bastante.

Vender durante a crise é assumir prejuízo. Também por essa razão é bom ter uma reserva de emergência. Se não tiver dinheiro e precisar dele, você será obrigado a vender suas ações e ficar com o prejuízo.

 

4. Atualize seu currículo

Isso não tem a ver com finanças, mas é parte da estratégia defensiva para você estar a frente dos outros, caso perca o emprego durante a crise.

Atualize o seu currículo, veja o que outras pessoas de referência têm feito no currículo e no LinkedIn, faça networking, saia para confraternizar com colegas do seu mercado e conheça pessoas.

Certa vez, ouvi uma frase que diz que a melhor hora para conseguir um emprego é quando você já tem um emprego.

Então, além disso, atualize-se, faça cursos e corra atrás do conhecimento.

A gente não cansa de dizer que o conhecimento é sempre uma saída.

 

Estratégias ofensivas

 

1. Monte uma reserva de oportunidades

O conceito é muito parecido com a reserva de emergência, mas não há uma regrinha sobre o tamanho ideal, e não é para ser utilizada em caso de precisar do dinheiro para alguma emergência.

A ideia é apenas para o caso de você querer investir, mas não ver grandes oportunidades, aplicar em ativos que possa resgatar a qualquer momento para comprar ações e outras coisas durante a crise.

Sim! As crises podem ser ótimas oportunidades para investir.

Isso porque, caso você já goste da ação de uma empresa, mas está a achando cara, durante uma recessão, o preço dela cairá.

Muitos investidores encaram isso como um período de promoção, já que provavelmente elas vão voltar a subir de preço depois da crise.

 

2. Invista periodicamente sempre

Durante a crise, nunca sabemos até onde os preços cairão. Então, caso você possa, escolha uma periodicidade, por exemplo uma vez por mês, e sempre invista.

Isso porque, supondo que o preço da ação da Petrobras custe R$ 30,00, quando a crise começar, seu preço cairá para R$ 28,00, depois para R$ 22,00, em seguida para R$ 16,00, então para R$ 10,00, para só depois começar a subir.

Se você for comprando nesse período, depois que ela voltar para os R$ 30,00, ou acima, terá garantido um preço médio menor.

Não tente acertar a mínima na mosca, pois quase ninguém consegue.

 

Haverá uma crise de fato?

Fabio Louzada, fundador do Eu me Banco e analista de investimentos, não aposta em uma crise econômica no ano que vem, sendo mais provável para 2021 por conta de um agravamento da guerra comercial entre China e EUA.

"Se procurarmos, havia muitos analistas falando dos perigos que corríamos de uma crise em 2019, que não ocorreu", afirma Louzada. "É claro que a economia deverá desacelerar, mas é um processo natural. Teremos eleições nos EUA, que deverá movimentar bastante o mercado".

Já para o Brasil, Louzada vê um momento ótimo para a economia. "Estamos ajustando as contas. Conseguimos diminuir em R$ 60 bilhões a expectativa de déficit para esse ano. Ano que vem devemos ter a reforma tributária e administrativa, e a confiança deve voltar. Conseguimos controlar a inflação e derrubar os juros", comenta. "Há uma série de fatores que devem impactar positivamente o Brasil".

Uma pesquisa do FMI analisou 63 países, entre 1992 e 2014, e quase nunca os especialistas conseguiram de fato antecipar uma crise. A maior parte das vezes, só depois de acontecer é que percebemos.

De todo modo, na minha opinião, prevenir é melhor do que remediar.

Essas estratégias te deixarão muito mais confortável e bem preparado, a crise aconteça ou não.

 

Você acha que haverá uma crise em 2020? Como está se preparando para isso?

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Sobre os Autores

César Esperandio: economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

Yolanda Fordelone: economista e jornalista, teve passagens por grandes jornais nas áreas de economia e finanças, foi professora em um curso de graduação em Economia e hoje coordena uma equipe em um aplicativo de gestão financeira. Além disso, se dedica às finanças pessoais no Econoweek.

Sobre o Blog

O Econoweek é um blog escrito por três economistas que querem traduzir a economia, as finanças e o dinheiro.

Econoweek