IPCA
0,1 Out.2019
Topo
Econoweek

Econoweek

A renda fixa morreu?

César

01/11/2019 04h00

A taxa Selic caiu de novo, de 5,5% para 5,0% ao ano, e a preocupação de quem investe é uma só: a renda fixa morreu? Onde eu invisto agora? Hoje, Econoweek te conta o que vai acontecer com a Selic e com os seus investimentos daqui em diante, com dicas e, claro, com a nossa opinião de o que você deve fazer.

Spoiler: mantenha a calma, pois não é fim do mundo. Pode deixar os seus investimentos onde estão enquanto te contamos o que você deve ou não fazer.

Antes, vale a pena entender como os seus investimentos funcionam para que você possa tomar sempre a melhor decisão.

 

Como funciona o Tesouro Selic?

O Tesouro Selic, título público vendido no site do Tesouro Direto, é afetado diretamente pelas alterações na taxa Selic, e é um dos investimentos preferidos para a reserva de emergência – aquela feita com o dinheiro que você deixa rendendo, mas que pode precisar a qualquer momento se tiver algum imprevisto e, assim, não se apertar ou entrar em dívidas.

Na prática, para investir neste título público, você apenas precisa abrir a conta em uma corretora e clicar em Tesouro Direto para encontrar o Tesouro Selic. Uma das características do papel é permitir o resgate a qualquer momento.

DICA: dê preferência às corretoras que não cobram nada para você investir nisso.

Mas o que pouca gente sabe é que o Tesouro Selic não paga exatamente a taxa Selic, e ainda desconta taxa de custódia e imposto de renda, diminuindo a rentabilidade do seu investimento.

 

Como é calculado o rendimento?

O que o Tesouro Selic paga a você é a Selic diária, não a meta da taxa Selic, que o Banco Central decide a cada 45 dias.

Na prática, as duas taxas são muito parecidas, mas, normalmente, a que você vai receber em seus investimentos é um pouquinho menor que a Selic.

No primeiro gráfico que destacamos no vídeo acima, levamos em conta a Selic diária acumulada em 12 meses. Supondo que você já tenha um investimento em Tesouro Selic há algum tempo, é isso que você tem de retorno antes de descontar os impostos e tributos.

A parte vermelha do mesmo gráfico é a projeção dos economistas para esse rendimento até o final de 2020, que coletamos no site do Banco Central.

Hoje, esse rendimento é de quase 6% ao ano, porcentagem que fica acima da taxa Selic atual. Isso porque levamos em conta os últimos 12 meses, quando a Selic estava mais alta, acumulando esses rendimentos à taxa atual. Então, se você já investe há algum tempo, é esse o seu rendimento hoje, que cairá um pouquinho daqui para frente.

 

E os impostos e tributos?

Para começar, a B3, a nossa Bolsa de Valores, cobra uma taxa de custódia de 0,25% ao ano sobre o total investido. É um valor que você arca para que a instituição "guarde" seus investimentos.

Depois, também temos que pagar o imposto de renda, mas apenas sobre o lucro da aplicação. O imposto de renda é regressivo, ou seja, quanto maior o tempo que você deixar o dinheiro investido, menor será a alíquota. O mínimo que você pagará é 15%, em investimentos não sacados por mais de dois anos.

Como a cobrança é inteligente, se você precisar sacar, será levado em conta o seu investimento mais antigo para você pagar o menor imposto de renda.

Mesmo descontando tudo isso, o rendimento ainda é bom. Mais de 5% ao ano, atualmente. Os economistas projetam queda até o final de 2020, mas não será uma redução tão grande assim.

Só falta explicar outro elemento importante para esta conta: a inflação.

 

Retorno vs. Inflação

Em 2016, quando a Selic era de 14,25% ao ano, a inflação acumulada em 12 meses também chegou bem perto disso, passando dos 10%.

Em uma continha de padaria, o que importa para o investidor é a diferença entre uma coisa e outra. Não adianta nada apenas a Selic ser alta. Se a inflação também for alta, isso irá comprimir ou até zerar os seus ganhos com os seus investimentos.

Exemplo prático: se você investir R$ 100 e tiver retorno de 10% em um ano, você terá R$ 110 um ano depois. Mas, se a inflação também subir 10% nesse período, isso significa que tudo o que era possível comprar com R$ 100 em mãos um ano antes, agora passou a custar R$ 110. O que quer dizer que você não ganhou nada. Não ganhou nenhum poder de compra e o seu dinheiro apenas manteve o valor.

Em 2013, em contrapartida, houve um período no qual a inflação foi até maior que os rendimentos do Tesouro Selic. Mostrando que os investidores estavam perdendo dinheiro, na prática.

Hoje, a inflação está mais baixa e essa diferença entre juros e IPCA é maior.

Mas, segundo as projeções dos economistas, os juros e inflação voltarão a se encontrar até o final de 2020, zerando o seu retorno real.

 

Descontando a inflação

Para facilitar a vida de todo mundo, eu fiz uma conta já descontando tudo (taxa de custódia, Imposto de Renda e inflação).

Hoje, temos um retorno real de aproximadamente 2,5% ao ano. Esse retorno já foi de quase 8% em 2017, quando a inflação caiu bastante e a Selic estava acima dos 10%.

A expectativa é que a Selic deverá cair ainda mais, até ao redor de 4,5%, enquanto a inflação deverá subir um pouquinho, de modo que o retorno real desse tipo de investimento deverá ser nulo até o final de 2020.

 

O que fazer com os seus investimentos?

Muita calma nessa hora. Daqui em diante, as projeções não são muito animadoras para quem investe no Tesouro Selic. Mas, o que fazer?

Primeiro, você pode buscar outros investimentos, sem deixar de levar em conta o objetivo de cada aplicação.

É possível encontrar CDBs de liquidez diária que pagam um pouco mais de 100% do CDI, embora, na prática, o retorno não será tão diferente do Tesouro Selic.

Além disso, para a sua reserva de emergência, que demanda disponibilidade para poder sacar a qualquer momento, sem correr muito risco, não há como fugir de retornos próximos à Selic.

Já para objetivos de médio e longo prazos, em que a liquidez não é prioridade, no próprio Tesouro Direto há o Tesouro IPCA, que garantirá sempre um retorno acima da inflação: o retorno real. Dá para encontrar tudo isso no site da sua corretora.

Também dá para pensar em títulos de renda fixa privados, como CBDs e vários outros, que têm um risco um pouquinho maior, mas continuam muito seguros. Por isso, têm retorno um pouco maior. O ponto de atenção é a liquidez, já que em alguns títulos, você precisa ficar até o final para receber o dinheiro de volta.

A renda variável, como é o caso das ações, é um tipo de investimento que vale a pena começar a estudar para investir, com objetivos de longo prazo. Nunca para a sua reserva de emergência, pois você pode precisar usar o dinheiro justamente em um dia ruim, em que as suas ações estiverem caindo. Daí não terá jeito e você terá que sacar com prejuízo.

O mercado de fintechs também traz novidades atraentes, pois a cada dia surgem novas opções de investimentos com boas remunerações. O importante é saber filtrar o que vale a pena, sem esquecer de analisar o risco de cada investimento.

Uma fintech lançadada há cerca de um mês é a MatchMoney, em que há a possibilidade de investimentos com retornos que começaram em 163% do CDI e vão até mais de 280% do indicador. Na prática, significa quase o triplo do rendimento do Tesouro Selic.

Como isso é possível? É um investimento chamado peer to peer lending, em que você empresta dinheiro direto para empresas. Só que, para haver mais segurança, essas empresas deixam um imóvel como garantia. Então, se a empresa der um calote, o imóvel será vendido e você não precisará se preocupar, pois a própria MatchMoney usará o valor da venda para continuar pagando os seus rendimentos.

Há outras fintechs interessantes como essa, mas você jamais deve colocar a sua reserva de emergência nisso, e é necessário ter claro o risco desse tipo de investimento.

 

Como estão os meus investimentos?

Eu, César Esperandio, tenho boa parte dos meus investimentos em renda fixa, que já investi há muito tempo. Então, todos ainda estão com uma boa performance, pois consegui alguns títulos prefixados a mais de 12% ao ano na época, além de outros atrelados ao IPCA, que me garantem uma remuneração acima da inflação.

Para a minha reserva de emergência, como eu disse, não há muitas opções.

Mas, daqui para frente, eu, que já tenho a minha reserva de emergência montada, vou começar a olhar com muito mais atenção para a renda variável. Atualmente, eu tenho uma pequena parcela dos meus investimentos nessa modalidade.

Em suma, não há motivo para desespero por conta da redução da Selic. Não precisa tirar todos os seus investimentos de um lugar para colocar em outro, pois você pode assumir muito mais risco e ficar vulnerável em momentos que não deveria.

 

O que você fará com a sua estratégias de investimentos diante da nova Selic?

Conta aqui nos comentários ou fale com a gente no nosso YouTube, Instagram e LinkedIn. Também é possível ouvir nossos podcasts no Spotify. A gente sempre compartilha muito conhecimento sobre economia, finanças e investimentos. Afinal, o conhecimento é sempre uma saída!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os Autores

César Esperandio: economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

Yolanda Fordelone: economista e jornalista, teve passagens por grandes jornais nas áreas de economia e finanças, foi professora em um curso de graduação em Economia e hoje coordena uma equipe em um aplicativo de gestão financeira. Além disso, se dedica às finanças pessoais no Econoweek.

Sobre o Blog

O Econoweek é um blog escrito por três economistas que querem traduzir a economia, as finanças e o dinheiro.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{user.alternativeText}}
Avaliar:

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Econoweek